O dilema existencial ou… a falta de um personagem tipicamente brasileiro
Amanhã eu tenho que aprensentar, no meu curso, um personagem tipicamente brasileiro. Aquele que guarda em si os esteriótipos do brasileiro para o brasileiro. A escolha deve ser feita com base no que o Asterix representa para a comunidade internacional que o conhece e para os próprios franceses.
O problema é que este devoir foi passado vendredi dernière e eu, mesmo depois de queimar pestanas e neurônios a semana inteira, não consegui achar um personagem de quadrinhos - ou de qualquer outra publicação - que se adequasse às exigências da professora.
Estou pensando e chegar lá amanhã e argumentar que o Brasil é muito grande para ter um só personagem que concentre em si um esteriotipo do brasileiro geral. Que tal? A minha outra opção é ir e ficar com cara de paisagem. E tem uma outra, não muito agradável, que é faltar.
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Hoje o tempo esquentou. Fez 20 graus. AÊÊÊ. Até que enfim um quente mais ou menos quente, né? Morria com o povo daqui quando fazia 15 graus e todo mundo ficava “ave, como esquentou”. Agora eu entendo que é porque 15 graus durante o inverno é uma coisa muito muito estranha. Quase como 15 graus em Teresina.
Como boa menina escolada no calor que sou, hoje deixei luvas, cachecol e vestes de por embaixo do casaco em casa e fui só com duas blusinhas finas (mais pelo estilo que pelo frio em si) e o casaco principal mesmo. Na volta estava parecendo o Lex Luthor com aquele sobretudo mara que fica parecendo a capa do Batman quando ele sai das dependências do seu castelo com raiva do pai.
Antes de contar do sabão que peguei da velha do prédio A, vou dizer que uma das Chinas está em vias de ganhar meu coração. Hoje, quando estava saindo - à la Lex Luthor - da universidade, escutei uma vozinha fina atrás de mim dizendo “Nataliá, Nataliá!!!”. Me virei e a Xue (pronuncia-se Xuê) veio fuçando na mochila. Tirou uma coisinha vermelhinha e pequenininha de dentro e me deu. “Tien. Ça c’est pour ton anniversaire! ^^ ” Awnn… Eu, que não sei esboçar reações de alegria, tentei dar o melhor de mim numa expressão supresa e disse “Ow, mais tu es mignon. Merci beaucoup”. E depois ela seguiu num monólogo explicando o que significa isso que está escrito em chinês e eu não entendi na-da! Só a parte que ela disse que alguma coisa era feita de areia. E ainda corre o risco de nem ser isso mesmo.
Mesmo que esteja escrito uma praga, achei lindo o gesto dela de levar uma lembrancinha três dias depois do meu aniversário (porque eu faltei à aula segunda e terça não teve mesmo). Ainda mais porque ela nem senta perto de mim nem nada. Só sorri toda vez que eu olho pra ela, atitude que, confesso, por vezes até me incomoda. Sorrisos não são coisas de Deus antes de meio dia. Quase dei um beijo nela. Mas não cheguei a tanto. Até queria, mas os chinas são tão reservados que fiquei receosa de estar sendo invasiva.
Eis o mimo! No final das contas eu nem sei aonde colocar. Como no Brasil eu via o povo usando essas coisinhas como pindurucalho de celular e ele até que combinava com o meu, logo tratei de me esforçar e colocar o negócio aonde a china possa ver que eu curti o presentinho.

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Agora, o sabão da velha.
Contextualização. Onde eu moro tem duas vias de acesso. Uma pela frente e a outra por trás dos prédios. A via da frente a gente usa quando quer ir ao centro, ou pra buscar as meninas na escola. A de trás é a que usamos para ir à parada de ônibus. Na frente, a saída é ok, não tem portão, é tudo aberto e muito civilizado. Para sair por trás, tem que subir uma escadinhas e sair por um portãozinho de aproximadamente 1m de altura que dá acesso à avenida. Mesmo na frente sendo tudo aberto, vai saber por quê, o diabo do portão tem uma tranca!
Todo dia meu primo passa lá e deixa o portão destrancado, pois é, no mínimo, sem lógica um portão de 1m de altura, no máximo 1,5m, ficar trancado, já que todos podemos pular, ou melhor, para os entrevados existe ainda a opção dar a volta e entrar pela frente dos prédios. Pois eu já cheguei lá umas 50 vezes e a porcaria do portão estava trancado. Isso me rendia meio minuto de corrida frenética e um esforço descomunal pra subir uma ladeira pior do que as que dão acesso à praia de Ponta Negra, em Natal. Confesso que já olhei com muito carinho praquele portão trancado e pensei bastante em pular, mas não tive peito para tal. Vai que passa a polícia e pensa que eu estou fugindo após um assassinato triplamente qualificado. Nunca se sabe. Tem coisas nessa vida que só acontecem comigo…
… como o sabão que a velha que tranca o portão passou em mim hoje. Desci do ônibus umas 13h40, como habitual, e ela desceu logo atrás. Eu estava sem chaves e torcendo para o portão estar aberto. Cheguei lá e, PIMBA, estava aberto. Como eu já havia visto a velha entrando outras vezes, passei e deixei aberto pra ela.
Mal trancou de volta a merda do portão a vilha se vira pra perguntar se eu tenho as chaves. Eu respondo que sim, mas que, hoje, malheureusement, eu havia esquecido em casa. E ela veio com todo o discurso de que o portão tem uma tranca e é para ser trancado, porque sempre que ela passa ele está aberto e ela gostaria de saber se era eu quem cometia tamanha atrocidade. Falei, educadamente, que não era e que sempre que passava eu o trancava - o que é mentira, porque nem sempre eu estou com as chaves e sempre penso no próximo que tambéem não tem as chaves e vai xingar a velha fdp que tranca o portão quando precisar abreviar o caminho da ladeira e ele estiver trancado.
Dei as costas pra me dirigir à minha residência e ela, como se não houvesse amanhã, continuou praguejando (aí sim, eu sabia que era praga) que se o portão - repito, de no máximo 1,5m de altura - ficasse aberto, pessoas iriam entrar ali para fumar durante a noite. E que elas poderiam também vomitar e ficar passeando no estacionamento, que é ao lado. Nessa hora eu fiz uma cara de preocupação - melhor que a cara de alegria pra China, confesso - e soltei um “mais c’est pas possible!!!” - pra ela sentir que eu não tinha a exata noção do extremo perigo ao qual o imbecil que deixa o portão aberto estava nos expondo.
Ela pareceu convencidíssima de que eu realmente havia me preocupado e de que eu vou mesmo trancar o portão sempre que passar por lá e isso me deixou satisfeitíssima. Nada melhor pra frescar com a cara de um velho mal educado francês do que ser extremamente irônico, passar de bonzinho e depois fazer tudo ao contrário. Já disse pra minha tia que quando eu voltar junto com ela nesse horário vou descer correndo do ônibus, correr mais, abrir o portão, passar, trancar e deixar lá trancado pra ela ter que tirar as chaves da bolsa para abri-lo novamente. E ainda irei o resto do caminho torcendo pra ela ter esquecido as chaves em casa.
Minha tia saiu à tarde com as filhas para fazer compras e quando voltou tinha em mãos este pequeno artefato, que é o chaveirinho das minhas próprias chaves. \o/ Dia de mimos hoje, não? Ainda mais sabendo quanto custou a cópia das chaves (12 euros!!!)

P.S.: Não, eu não escrevi “rebolation” no texto do curso. hahahaha Bisooous!!!
Tradução dos termos franceses:
devoir - verbo dever que, assim como no Brasil, também se aplica à expressão exercício da escola para fazer em casa.
vendredi dernière - última sexta-feira, ou sexta-feira passada, como queiram.
Tien. Ça c’est pour ton anniversaire! - Toma! Isso é pelo seu aniversário.
Ow, mais tu es mignon. Merci beaucoup - Ow, mas tu é fofa (ou) engraçadinha (ou) meiga (ponha aqui seu adjetivo preferido para representar a meiguice). Muito obrigada.
malheureusement - infelizmente.
mais c’est pas possible!!! - Mas não é possível
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Ahh, amanhã talvez eu conte como será a minha vida esportiva em solo francês. Posso adiantar que será bem dinâmica. hehehe ;*