Primeiro contato com o curso I
O dia começou relativamente cedo. Ela levantou às 8h em ponto, quando a tia e as crianças saíram para a escola. O primeiro esforço, como ela haveria de confirmar mais para frente, seria o menor de todos: tomar banho.
- Ao menos agora já está claro às 8h - pensou.
Tomou banho, café e aguardou a hora de ir para o ponto de ônibus. No caminho, diversas cenas passavam nos seus olhos. Será que no saguão da universidade estariam muitos alunos perdidos, assim como ela, querendo saber a que horas e onde começava a reunião? Por via das dúvidas havia levado o calendário escolar que lhe foi dado no ato da matrícula. Folheou um pouco e o ônibus anunciou que o próximo ponto seria o seu.
Ela desceu a ladeira que passa ao lado da universidade e foi em direção à porta automática que dá acesso ao saguão do espaço destinado a estudantes estrangeiros. A porta estava fechada. Um aviso dizia que ela ficaria desativada de 15 a 28 de fevereiro.
- Houston? - pensou ela. - Mas hoje já é primeiro de março!
Olhando mais atentamente ela avistou uma massa popular enfurecida ocupando cada mínimo espaço do saguão e caminhou um pouco mais adiante para entrar pela porta mecânica. Esta sim, abria e fechava. Mal ela entrou e já estava BEM-QUENTE.
Ficou parada três segundos para se ambientar. Já havia estado ali. Tudo deveria estar explicado no mural. Encostou em um deles para observar. Nada dizia respeito ao seu curso, mas ela continuou olhando, como quem ainda não tivesse visto tudo. Não mais que de repente, uma linguagem reconhecível.
- Oh, brasileiros! - disse.
- Sim sim! - respondeu o trio, já todos sorrisos.
- Vocês sabem me explicar como funciona? Onde estão os horários das aulas, aonde vai ser a reunião do nível dois?
- A, nós estamos no 3, mas vai ser tudo junto. Um, dois e três. Estamos esperando chamar.
- Tudo bem, então. :)
- Você vem de onde?
- Do Piauí.
- Fazer o quê?
- Só estudar francês mesmo. E vocês, estudam o quê?
- Ah, nós viemos de intercâmbio universitário. Estudamos engenharia. De produção no Brasil e de informática aqui.
- Hum, legal. Entã obrigada. Vou ali ver o que mais há no mural.
- Por nada. Boa sorte.
- Pra vocês também.
Se afastou do trio. A tia já avisara que quanto menos brasileiros por perto, melhor. Evitar o português é uma boa tática para aprender mais rápido o francês. Ou o chinês ou o mandarim, pelo que mais pareceu pela quantidade de japas presente no local.
No mural mais adiante avistou uma lista com seu nome. Na ordem ela figura como número 2 na lista, porque seu prénome começa com N, mas o nome mesmo é com A. Na mesma lista, outro fato curioso: da lista de 21 alunos, somente três possuem nomes ocidentais.
- Bom, ao menos, pela primeira vez na vida, meu nome é um dos primeiros em lista de chamadas - pensou.
Observou os horários das aulas e, enquanto todos os orientais chegavam com seus supercelulares que não só ligam, recebem e mandam mensagem, como também trocam toda a roupa de cama quando seus donos levantam e preparam aquela xícara de café deliciosa, tirando fotos dos horários, ela tentava - loucamente - anotar tudo.
Às segundas e quartas as aulas começam às 9h15. Não precisa saber que hora elas acabam, partindo do pressuposto que sair atrasada da universidade não é problema, visto que ela não faz mais nada no restante do dia. Às terças - putamerda! - começam às 12h15.
- Que horário es… perto! - resmunga.
Às quintas as aulas começam às 10h15. Ela, por um instante, imagina como funciona a mente de quem elaborou o quadro de horários. Desiste e anota o início da aula na sexta, que é às 13h15.
- É. Vai demorar pra decorar quando chegar às 9h15, às 10h15, às 12h15 ou às 13h15 - resmunga novamente.
Continua…